Coisas que você nunca verá, andando rápido demais

Durante algum tempo passei por uma mesma rua todos os dias. Passava de carro e quase sempre com muita pressa. Quase sempre, atrasado.

Até que um dia precisei deixar o carro no mecânico e decidi ir caminhando até o local onde teria uma reunião de trabalho, afinal não era uma distância tão longa assim.

Nesse dia encontrei um senhor de talvez 60 ou 70 anos, negro, grisalho. Ele tinha um violino e um chapéu tão peculiar, que não sei descrever. A medida que fui me aproximando, ele, que até então estava sentado, se levantou e começou a tocar uma versão diferente de “Amazing Grace“, uma das músicas mais bonitas que conheço. Me fez parar. Fiquei de longe, como quem nada quer e não ousei, nem por um minute interrompê-lo.

A música acabou, eu o aplaudi junto com mais outras duas ou três pessoas que também haviam parado para ouvir. Me aproximei, e perguntei seu nome. Era Dito, seu Dito. Perguntei se ele conhecia a letra da música que havia acabado de tocar. Ele não sabia. Nunca soube. Então, expliquei com poucas palavras e na minha ingenuidade afirmei: “o senhor devia aparecer por aqui mais vezes“, e tive que ouvir: “já tem um tempinho que venho pra cá, quase um ano“.

Quase um ano, e eu nunca o tinha visto! A culpa era minha, eu sempre tive pressa demais.

Às vezes a vida é assim. Rápida demais para reparmos nos detalhes, nas pequenas coisas, na beleza do que é simple e discreto. Estamos correndo tanto, que não conseguimos sequer olhar pela janela. Nos tornamos motoristas apressados. Nos tornamos passageiros solitários.

Por isso, repense sua vida, suas prioridades, no que você tem investido. Trabalhe menos. Observe mais, as coisas e principalmente as pessoas.

E, se eu pudesse te dar um conselho, seria: até hoje, eu nunca consegui lembrar o assunto da reunião que fui aquele dia. Mas, eu nunca esquecerei da versão de Amazing Grace do seu Dito.